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sábado, 4 de março de 2017

A cura dos ferimentos sofridos na vida

Um dos empecilhos que sempre preocupa os monges é o sentimento da tristeza. Num apotegma se diz: 'Pai Poimen foi questionado por um irmão: "Pai, o que devo fazer, pois sou abatido pela tristeza?" O ancião lhe respondeu: "Não olhes para ninguém à toa, não julgues ninguém, não calunies ninguém e o Senhor te dará repouso". 
Aqui não se propõe nenhum método sobre o melhor modo de lidar comigo mesmo, como devo ver um mim mesmo a positividade, mas, de forma paradoxal, um comportamento em relação ao outro. Livro-me de minha tristeza quando não julgar os outros. Aqui, seguramente, a tristeza está estritamente ligada ao fato de eu me colocar acima dos outros, descobrindo que eu próprio não sou coerente com meus ideias. Na medida em que prezo os outros e não mais os desprezo, também não preciso mais desprezar a mim mesmo. A nova visão do outro me libertará da imagem falsa que tenho de mim mesmo, que é a causa de minha tristeza. 
Muitos dos ferimentos que arrastamos conosco de um lado para outro nos foram impingidos por pessoas, por pais e educadores, por invejosos e pessoas que não estão em unidade consigo mesmas. Um conselho que nos dão os Padres é que devemos reconciliar-nos com os ferimentos e descobrir ali o cerne de nossa doença. 
Se quiseres sanar os ferimentos terríveis da alma, deves suportar o que o médico te receita. Quem está doente não gosta de sofrer amputações ou purificações. Não gosta de se lembrar de que está doente, mas no fundo está convencido de que não poderá ser curado de sua doença sem esse tratamento. E assim suporta aquilo que o médico lhe receita. Sabe que ficará curado de uma longa doença mediante um pequeno desprazer. O médico Jesus liberta da glória vã. Quem foge de uma prova útil foge da vida eterna. Quem é, pois, que ajuda Santo Estêvão a ter tal glória, se não aqueles que o apedrejam? 
Os ferimentos que os outros me infligem revelam minha própria doença. 

GRUN, Anselm. A orientação espiritual dos Padres do deserto. Petrópolis: Vozes. 2013 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Deserto e Tentação

O deserto é um dos grandes temas do monaquismo. Os monges vão conscientemente para o deserto para ali estar a sós consigo mesmos e para procurar a Deus. O deserto era considerado pelos antigos como a morada dos demônios. Antão foi para o deserto na intenção de lutar com os demônios dentro de seu próprio domínio, isto é, dentro de sua própria habitação. A decisão de Antão de instalar-se no domínio dos demônios foi certamente uma decisão bastante heroica, mas foi também um desafio aos demônios na medida em que eles o visitavam e sempre de novo procuravam reconquistar seu próprio domínio e habitação, expulsando-o dali. Antão acreditava que, em empreendendo sua luta contra os demônios, também nos homens do mundo alguma coisa haveria de tornar-se mais transparente e saudável. Pois, se vencesse os demônios, então eles também teriam menos poder sobre os homens do mundo. Neste ponto, Antão, por meio de sua luta com os demônios, torna-se também um representante do mundo. No deserto Antão luta contra os demônios em favor dos homens. Esta é sua contribuição para a melhoria do mundo, pois, tendo-se retirado dele, se põe em luta com os demônios em vista de um mundo mais saudável. Segundo Antão, o deserto é o lugar em que os demônios se apresentam de uma maneira bastante clara, isto é, de uma maneira menos dissimulada. Assim como Jesus fora tentado pelo diabo no deserto ao ser conduzido para lá pelo Espírito  Santo, do mesmo modo os monges que vão para o deserto precisam contar com a luta contra os demônios. O monge é essencialmente um lutador. E os patriarcas sempre são elogiados quando se tornam vencedores na luta. 

GRUN, Anselm. O céu começa em você. Petrópolis: Vozes. 2014