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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Deus, portanto dá carta branca ao diabo?

Santo Agostinho sustenta que, se o diabo tivesse carta branca de Deus, "nenhum de nós permaneceria vivo". 
"O poder de Satanás não é infinito - lê-se no n. 395 do Catecismo da Igreja Católica. Ele não é mais que uma criatura, potente pelo fato de ser puro espírito, mas embora sempre uma criatura: não pode impedir a edificação do reino de Deus. 
Embora Satanás aja no mundo por ódio contra Deus e o seu reino em Cristo Jesus e, embora a sua ação cause graves danos da natureza espiritual e indiretamente também de natureza física para todo homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela divina Providência, a qual guia a história do homem e do mundo com força e doçura. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas "nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8,28). 
Eis então que nós nos confiamos a Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, que veio "para destruir as obras do diabo" (1 Jo 3,8) onde libertar nós seres humanos da escravidão de Satanás, Jesus Cristo expulsa "os demônios com o dedo de Deus" (Lc 11,20), no sentido de que consegue amarrar Satanás, privá-lo de tudo, também do seu reino, que está para acabar. A mesma coisa faz hoje sobre a terra mediante a Igreja e os sacerdotes exorcistas: "eu expulso demônios - vem reafirmando - e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia chegarei ao termo" (Lc 12,32). 
Portanto, estejamos tranquilos, porque da nossa parte temos o Forte e a Igreja, como veremos em breve. 

AMORTH, Gabriele. Deus é mais belo que o diabo. São Paulo: Fons Sapientiae: 2016. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A via ordinária da ação diabólica: tentação e pecado

A missão de Satanás é explicada claramente pelo apóstolo São Pedro: "O vosso inimigo, o Diabo, é como um leão rugindo em torno, procurando a quem devorar" (1 Pedro 5,8). Podemos interpretar a palavra "devorar" como "causar dano", "levar à perdição". Sua missão no mundo consiste em seduzir as almas, conduzir cada homem e cada mulher pelos péssimos caminhos do pecado. Nessa trágica missão, a via mestra é o percurso ordinário da tentação. Contra as tentações que visam nos levar ao pecado, cada um deve combater até o último dia. De fato, o pecado conduz à morte. 
Não deve surpreender a minha afirmação de que a via ordinária faz mais vítimas do que a via extraordinária, sobre a qual falaremos adiante. Por meio da primeira, todos somos vítimas; por meio da via extraordinária, somente algumas pessoas, além disso, muitas vezes sem culpa própria e, portanto, sem responsabilidade moral. A tentação nos assalta todo santo dia. Até Jesus aceitou sujeitar-se a ela durante os quarenta dias que passou no deserto, após ter sido batizado no Jordão (cf. Mateus 4,1ss), e também depois disso. Tenta-nos Satanás agindo em nossa esfera natural, isto é, ora levando em conta nossas feridas interiores e as fraquezas de cada um, ora por meio das ocasiões próximas de pecado que se apresentam a todos. 
A tentação é perigosa porque nem sempre é fácil de ser descoberta nos recantos de nossos pensamentos, palavras, obras e omissões. É preciso ter discernimento, um olhar e uma inteligência espiritual adestrada para reconhecer o guiso do tentador e recusar aquilo que nos conduz diretamente ao pecado, aceitando, ao invés, as boas aspirações que provém de Deus. Para isso é necessário guardar o nosso coração e nossos sentidos externos dos espetáculos indecentes. Cada um de nós se torna tudo o que vê, o que ouve, além do que lê. Discernimento, pois! E escolha de boas amizades. 

AMORTH, Gabriele. O exorcista explica o mal e suas raízes. Rio de Janeiro: Petra. 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Um exorcista conta-nos

Recebi um dia a visita de Marcela, uma jovem muito loira de 19 anos, com um ar descarado. Sofria de dores lancinantes no estômago e tinha um comportamento que não conseguia dominar nem em casa, nem no trabalho: dava respostas ofensivas, ásperas, sem se conseguir segurar. Para os médicos ela não tinha nada. Quando lhe pus as mãos sobre as pálpebras, no início da bênção, ficou com os olhos totalmente revirados, com as pupilas apenas visíveis viradas para baixo, e deu uma gargalhada irônica. Só tive tempo de pensar que se tratava de Satanás, quando ouvi dizer: "Sou Satanás!" voltando a dar uma gargalhada. Marcela intensificou progressivamente a sua vida de oração, comungou com constância, rezou diariamente o terço e confessou-se todas as semanas (a confissão é muito mais forte que um exorcismo!).
O seu estado melhorou progressivamente, excetuando algumas pequenas recaídas que se verificaram quando diminuía um pouco o seu ritmo de oração. Curou-se ao fim de dois anos. 

José, 28 anos, foi visitar-me com a mãe e a irmã. Percebi logo que só tinha vindo para fazer a vontade de seus familiares. Cheirava a tabaco impregnado. Drogava-se, traficava droga e blasfemava. Inútil falar de oração e de sacramentos! Esforcei-me por levá-lo a aceitar a minha bênção de boa vontade. Mas, passados breves momentos, o demônio manifestou-se imediatamente com violência e eu não insisti. Quando eu disse ao José o que é que ele tinha, respondeu-me: "Já sabia e estou contente assim; sinto-me bem com o demônio". Não o voltei a ver. 

AMORTH, Gabriele. Um exorcista conta-nos. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.