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domingo, 25 de dezembro de 2016

Gloria in Excelsis Deo!

Os anjos cantaram no presépio de Belém: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade". 
Jesus baixou à terra. O Princípe da paz veio estabelecer o seu reino de Amor e de Misericórdia. E nos dirá: "Eu vos dou minha paz!" A paz de Deus não é como a dos homens. Os homens procuram a paz nos tratados, dos discursos, mas guardam no coração tanto ódio e tanta maldade! A Vossa paz, doce menino do Presépio, ó adorável Menino Jesus, é a paz inalterável e doce que penetra nas profundezas do coração. Ó doce paz do Senhor, como és boa para os que te conhecem! Mas a paz se encontra na luta contra nossa ingrata e pobre natureza, rebelde à Graça. E só quem, cheio de boa vontade, abraçou a cruz de Jesus Cristo e aceitou o combate, só esse goza a verdadeira paz dos filhos de Deus. Vem daí a felicidade incomparável dos santos. Agora, mais do que nunca, o mundo tem necessidade de santos, porque o mundo tem necessidade de paz! Santos, isto é, homens de boa vontade! Precisamos de santos que preguem o amor, como São Francisco de Assis ou Santa Catarina de Sena, que assim bradava: "Paz!Paz!Paz! Nada triunfa no coração do homem como a Paz. O ódio do próximo é uma ofensa contra Deus. Devemos odiar o ódio". Venha a paz sobre o mundo, ó Menino Jesus do Presépio, venha a Paz aos nossos corações!

BRANDÃO, Ascânio. O Breviário da Confiança. 3. ed. São Paulo: Cléofas, 2014.

* O "Breviário da Confiança" é um livro do Monsenhor Ascânio Brandão que apresenta uma meditação para cada dia do ano. 


Glória a Deus e Paz aos Homens

O acontecimento do nascimento do Salvador, como aquele da encarnação, tem também no evangelho de Lucas o seu cântico e é o Glória a Deus, cantado pelos anjos na noite de Natal. Os cânticos representam - dizia - o exórdio da liturgia natalina, enquanto celebração festiva e pneumática dos eventos do nascimento e infância de Cristo. Por isso eles entraram a fazer parte, desde o início, da liturgia cristã e ocupam nela, até agora, um lugar relevante: o Benedictus, o Magnificat e o Nunc dimittis na liturgia das horas, - respectivamente nas laudes, nas vésperas e nas completas - e o Glória definitivamente na liturgia eucarística. Ao breve cântico dos anjos (Lc 2, 13-14), foram acrescentadas bem cedo, desde o II século, algumas aclamações a Deus ("Te louvamos, te bendizemos...") em uso na língua hebraica e no Novo Testamento, seguidas, um pouco mais tarde, por uma série de invocações a Cristo ("Senhor Deus, Cordeiro de Deus") e assim ampliado, o texto foi introduzido na VI século, na Missa do Natal e depois em outras Missas festivas, onde permaneceu até hoje com o nome de "grande doxologia". 
O Glória, cantado ou recitado no início da Missa, constitui um apelo ao Natal inserido no coração mesmo do mistério da ceia, significando a continuidade entre o nascimento e a morte de Cristo, entre o Natal e a Páscoa, no interior de um mesmo mistério de salvação. Santo Agostinho distinguia, no seu tempo, dois modos de celebrar um acontecimento da história da salvação: a modo de mistério e a modo de simples aniversário. Na celebração a modo de aniversário, não se requer outra coisa - dizia 0 senão "indicar com uma solenidade religiosa o dia do ano no qual ocorre a recordação do próprio acontecimento"; na celebração a modo de mistério ("in sacramento"), "não só se comemora um acontecimento, mas se faz também de modo que se compreenda o seu significado e se acolha piedosamente". Ele considerava a Páscoa uma celebração mistérica, embora colocasse o Natal entre as celebrações a modo de aniversário (Sto. Agostinho, Epist. 55, 1,2; CELS 34,1. p.170). O santo falava assim porque o Natal tinha sido apenas introduzido recentemente entre as festividades da Igreja e não fora ainda aprofundado todo o seu rico conteúdo também mistérico. Nós hoje não podemos mais manter aquela distinção. O Natal que celebramos não é apenas uma "recordação", mas é um "mistério", que exige também ele ser compreendido no seu significado para nós. São Leão Magno iluminava já este significado mistérico do Natal, falando do "mistério do nascimento de Cristo" e dizendo que "os filhos da Igreja foram gerados com Cristo no seu nascimento, como foram crucificados com ele na paixão e ressuscitados com ela na ressurreição (Ser. VI di Natale, 2; PL 54,213).

CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério do Natal. São Paulo: Santuário, 2005.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A Mensagem da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma

Na estrutura interna da fé cristã, o Natal tem um significado muito especial. Não o celebramos da mesma maneira que festejamos o nascimento de grandes homens, porque a relação que temos com Cristo é muito diferente da veneração que prestamos a outras grandes personagens. O que interessa nestas são os seus feitos: os pensamentos que elaboraram e escreveram, as obras de arte que criaram e as instituições que deixaram. Os feitos pertencem-lhes e não são obras das suas mães, que só nos interessam na medida em que nos podem ajudar a esclarecer esses feitos. 
Mas Cristo não vale para nós unicamente pela sua obra, pelo que fez, mas sobretudo pelo que era e pelo que é - a totalidade da sua pessoa. Ele vale para nós mais do que qualquer outro ser humano, porque é mais do que simples homem. Ele vale porque n´Ele a terra e o céu se tocam e assim, n´Ele, Deus se torna palpável para nós. Os Padres da Igreja denominaram Maria como terra sagrada, de onde Ele foi formado como homem. O maravilhoso é que Deus, em Cristo, entrou para sempre em contato com a terra. Agostinho exprimiu assim este pensamento: Cristo não quis nenhum pai humano para que fosse visível a sua filiação divina, mas quis uma mãe humana: "Quis assumir em si o gênero masculino e na sua mãe honrou o gênero feminino... Se Cristo como homem aparecesse sem o contributo do gênero feminino, então as mulheres teriam razão para desesperar... Mas Ele quis venerar, recomendar e acolher os dois gêneros. Homens, não desespereis; Cristo dignou-se ser homem; Mulheres, não desespereis: Cristo dignou-se nascer de uma mulher. Ambos os gêneros contribuíram para a salvação: temos o masculino e o feminino - na fé não há homem nem mulher". 
Expressemo-lo de outra maneira. No drama da salvação não acontece como se Maria fizesse o seu papel e saísse de cena, como alguém que terminou a sua função. O papel da mulher na encarnação não se esgota em pouco tempo. É a permanência do ser de Deus na terra, com os homens, conosco, que também somos terra. Por isso, o Natal é uma festa de Maria e de Cristo ao mesmo tempo. Por isso, uma igreja da Natividade tem de ser uma Igreja de Maria. É com esses pensamentos que devemos olhar para a imagem antiquíssima e misteriosa, que os romanos chamam de "Salus populi Romani". 

RATZINGER, Joseph. Esplendor da Glória de Deus: Meditações para o Ano Litúrgico. Braga: Franciscana, 2005.