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terça-feira, 9 de outubro de 2018

A RENOVAÇÃO DA IGREJA


"Ao término deste capítulo, perguntamos mais uma vez: o que é na realidade a reforma da Igreja? Talvez seja útil referir-nos mais uma vez ao cardeal de Trento que não se importava com a Confraria do Rosário, porque considerava infinitamente mais importante a fraternidade de Cristo. Dando ouvidos a essa frase ao mesmo tempo jocosa e verdadeira, creio que se pode dizer que reforma é simplificação. Não esqueçamos, porém, que existe uma dupla simplificação. Existe a simplificação da comodidade, que pouco se importa com a aquisição de maior riqueza e da plenitude. Existe também a simplicidade que leva em consideração as próprias origens. Essa é a verdadeira. Renovação significa, pois, simplicidade: não no sentido de "não importar com", mas no sentido de tornar-se simples e de voltar-se para a simplicidade do mistério de tudo aquilo que tem vida. Renovação significa procurar a simplicidade do próprio Deus."

(Joseph Ratzinger - "O Novo Povo de Deus" - Capítulo II - "A renovação da Igreja"). 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Testemunhas na era pagã

A cena muda, mas as divisões persistem. Todavia, o contexto em que a Igreja atua é um mundo já pagão...

Joseph Ratzinger -  Sem dúvida, a descristianização chegou a níveis que não conseguiríamos imaginar na época do encerramento do Concílio. Basta pensar que na ex-Alemanha comunista pouco menos de 1% da população se batiza. Assistimos a um progresso incrível do paganismo, e o cristianismo, que ainda parecia presente há trinta anos, desaparece da vida e da consciência pública. Assim, temos que nos confrontar com um pós-cristianismo muito forte não só no Ocidente mas também no Oriente. Basta pensar na Rússia, onde encontramos a mesma situação: existe um núcleo de fiéis, mas a grande maioria quase não é tocada pelo Evangelho. Por isso, nasce uma exigência de uma real nova evangelização, que se dirija a essas pessoas distantes do cristianismo, embebidas de secularismo, que devem ser aproximadas da realidade divina. Essa é a grande missão para os próximos anos. 

Hoje, todas falam de nova evangelização, mas ela pode se tornar uma palavra de ordem. O que significa evangelizar? Como pode acontecer a fé para o homem de hoje?

Joseph Ratzinger: Creio que as testemunhas são a primeira condição para essa evangelização. Pessoas que, vivendo a fé e verificando-a na sua vida, mostrem com clareza que a fé faz viver e possibilita uma vida autenticamente humana na comunhão e na comunidade. Só assim o conteúdo da mensagem torna-se compreensível. Por isso, precisamos de núcleos de cristãos onde essa verificação da fé na vida - pessoal e comunitária - se realize e ofereça a todos uma experiência cujas raízes vale a pena conhecer. 

RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Ser cristão na era neopagã - vol.3: entrevistas (1986-2003) / Cardeal Ratzinger; organização, apresentação e notas de Rudy Albino de Assunção - Campinas, SP: Ecclesiae, 2016. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Limitações e liberdade do ser humano

É com a tentação de Israel em mente que a Sagrada Escritura retrata a tentação de Adão e, em geral, a natureza da tentação e do pecado em qualquer idade. A tentação não começa com a negação de Deus e com a queda direta num ateísmo. A serpente não nega Deus, aparentemente: começa antes com um pedido perfeitamente razoável de informação que, na realidade, contém uma insinuação provocadora do ser humano e o atrai da confiança à desconfiança: "É verdade ter-vos Deus proibido de comer o fruto de alguma árvore do jardim?" (Gn 3,1). A primeira coisa não é a negação de Deus, mas a dúvida acerca da sua aliança, acerca da comunidade de fé e oração, dos mandamentos, de tudo quanto é contexto para viver a aliança de Deus. Existe, de fato, uma grande iluminação quando se duvida da aliança, se experimenta a desconfiança, se exige liberdade e se renuncia a obedecer à aliança como se ela fosse um colete de forças que impede o gozo das reais promessas da vida. É tão fácil convencer as pessoas de que essa aliança não é um dom, mas antes uma expressão de inveja relativamente à humanidade, que rouba aos seres humanos a liberdade, bem como as coisas mais preciosas da vida. Com esta dúvida, as pessoas ficam no bom caminho para construírem os seus mundos. Por outas palavras, é então que tomam a decisão de não aceitar as limitações da sua existência; é então que decidem não se deixar amarrar pelas limitações impostas pelo bem e pelo mal, ou pela moralidade em geral, mas, muito simplesmente, se libertam a sia mesmo mas ignorando-as.

RATZINGER, Joseph. No princípio Deus criou o céu e a terra. Portugal: Principia. 2013

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A importância da experiência salvífica

Portanto, dado central de nossa fé é o fato de que Deus interveio em nossa história por seu Filho Jesus Cristo, constituindo esta iniciativa absolutamente livre de Deus uma interpelação para nós. Acolhendo-a, deixando que polarize, hierarquize e estruture todas as dimensões de nossa pessoa, respondemos ao gesto gratuito de Deus, assumimos o sentido último de nossa existência, dispomos de uma referência para nosso agir, concebemos nossa história como um projeto a ser realizado, em suma, vivemos como cristãos. 
Esse acolhimento nos atinge profundamente porque afeta o âmbito mais central de nossa pessoa, como seres dotados de razão e liberdade, que não se satisfazem em vegetar ao longo da vida, apenas distraídos e entretidos por problemas cotidianos e por preocupações superficiais. Atingido-nos profundamente, esse envolvimento com o convite divino torna-se uma experiência totalizante, que ilumina e estrutura a multiplicidade de experiências que constituem nossa história pessoal. 
Naturalmente nessa experiência, feita igualmente pelos primeiros cristãos, encontra-se implicada toda a riqueza da fé cristã: a pessoa de Jesus Cristo, a imagem de Deus que nos revelou, sua concepção do ser humano, da sociedade e da história, suas referências éticas, sua visão do além, sua resposta ao angustiado anseio de homens e mulheres por felicidade e imortalidade. Nada mais natural que, no curso dos anos, a reflexão cristã fosse explicitando esse conjunto de elementos da fé cristã, tratando-os separadamente, a exemplo do espectro solar refletindo os componentes de um raio de luz. Desse modo, ganhou um tratamento particular na história da teologia cristã a compreensão da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo, construindo a atual doutrina da salvação ou soteriologia. 

MIRANDA. Mario de França*. A Salvação de Jesus Cristo. A doutrina da graça. São Paulo: Loyola. 2011. 

Padre França recebeu o Prêmio Ratzinger de Teologia, instituído em 2011, em cerimônia realizada no Vaticano, na conclusão do Simpósio “Deus caritas est. Porta da Misericórdia”, que marcou as comemorações dos 10 anos da publicação da primeira encíclica de Bento XVI, Deus caritas est.
Esse prêmio é atribuído, anualmente, a dois estudiosos que se distinguiram na pesquisa científica de caráter teológico, que difundem o pensamento da Igreja e conhecem o pensamento do teólogo José Ratzinger.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A verdadeira e a falsa reforma

Difundiu-se hoje em toda parte, inclusive em altos níveis eclesiásticos, a ideia que uma pessoa é mais cristã quando está envolvida em muitas atividades eclesiais. Incentiva-se uma espécie de terapia eclesiástica da atividade e do esforço. Procuram colocar todos em uma comissão ou pelo menos alguma função da Igreja. Deve sempre haver uma atividade eclesial, deve-se sempre falar da Igreja ou fazer alguma coisa por ela ou nela. Mas um espelho que reflete só a si mesmo não é mais um espelho; uma janela que em vez de permitir um olhar livre para o horizonte se coloca como obstáculo entre o observador e o mundo não tem sentido. 
Uma pessoa pode exercer ininterruptamente atividades nas associações eclesiais e não ser um cristão. Pode acontecer que outra pessoa viva simplesmente da Palavra e do Sacramento e pratique o amor que vem da fé em jamais ter participado de comissões eclesiásticas, sem ter se envolvido com as novidades da política eclesiástica, sem ter participado de sínodos e sem ter votado neles, e é um verdadeiro cristão. Nós não precisamos de uma Igreja mais humana; precisamos de uma Igreja mais divina. Só assim ela será também verdadeiramente humana. Por isso, tudo o que é feito pelo homem dentro da Igreja deve ser considerado puramente como serviço e se retirar diante daquilo que é essencial.  

RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Ser cristão na era neopagã - vol. 1: Discursos e Homilias (1986-1999) / Cardeal Ratzinger (Bento XVI). Organização, apresentação e notas de Rudy Albino de Assunção. Campinas: Ecclesiae, 2014. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Santificado seja o vosso nome

O primeiro pedido do Pai-Nosso recorda-nos o Segundo mandamento do Decálogo: não deves desonrar o nome de Deus (Ex 20,7; cf. Dt 5,11). Mas o que é isso, "o nome de Deus"? Quando falamos disso, aparece diante de nós o quadro em que Moisés no deserto vê uma sarça que arde, mas que não se queima. No primeiro momento, ele é impelido pela curiosidade de ver este misterioso acontecimento mais de perto, mas então uma voz chama por ele de dentro da sarça, e essa voz lhe diz: "Eu sou o Deus dos teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e o Deus de Jacó" (Ex 3,6). Este Deus manda-o de volta para o Egito com a missão de conduzir o povo de Israel do Egito para a Terra Prometida. Moisés deve, em nome de Deus, exigir do faraó a libertação de Israel. 
Mas no mundo de então havia muitos deuses; por isso Moisés pergunta-lhe pelo seu nome, com o qual este Deus, na sua especial autoridade, se identifica face aos deuses. Deste modo, a ideia do nome de Deus pertence imediatamente ao mundo politeísta; nele deve também este Deus se dar um nome. Mas o que Deus que chama Moisés é realmente Deus. Deus em sentido verdadeiro e próprio não existe no plural. Deus é por definição  apenas um. Por isso, Ele não pode entrar no mundo dos deuses como um entre muitos, não pode ter um nome entre outros nomes. 
Assim, a resposta de Deus é simultaneamente recusa e promessa. Ele diz de si mesmo simplesmente: "Eu sou o que sou" - Ele é simplesmente. Essa promessa é nome e não é nome ao mesmo tempo. Por isso era inteiramente correto que em Israel esta autodesignação de Deus, que fora escutada na palavra YHWH, não fosse pronunciada, não tivesse sido degradada para uma espécie de um nome de deuses. E por isso não era correto que nas novas traduções da Bíblia este nome, tão misterioso e inefável para Israel, fosse escrito como outro nome qualquer, e assim o mistério de Deus, do qual não há nem imagens nem nome pronunciável, tenha sido submergido no comum de uma história geral da religião. 

Ratzinger Joseph - Bento XVI. Jesus de Nazaré. Primeira Parte - Do Batismo à Transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A Mensagem da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma

Na estrutura interna da fé cristã, o Natal tem um significado muito especial. Não o celebramos da mesma maneira que festejamos o nascimento de grandes homens, porque a relação que temos com Cristo é muito diferente da veneração que prestamos a outras grandes personagens. O que interessa nestas são os seus feitos: os pensamentos que elaboraram e escreveram, as obras de arte que criaram e as instituições que deixaram. Os feitos pertencem-lhes e não são obras das suas mães, que só nos interessam na medida em que nos podem ajudar a esclarecer esses feitos. 
Mas Cristo não vale para nós unicamente pela sua obra, pelo que fez, mas sobretudo pelo que era e pelo que é - a totalidade da sua pessoa. Ele vale para nós mais do que qualquer outro ser humano, porque é mais do que simples homem. Ele vale porque n´Ele a terra e o céu se tocam e assim, n´Ele, Deus se torna palpável para nós. Os Padres da Igreja denominaram Maria como terra sagrada, de onde Ele foi formado como homem. O maravilhoso é que Deus, em Cristo, entrou para sempre em contato com a terra. Agostinho exprimiu assim este pensamento: Cristo não quis nenhum pai humano para que fosse visível a sua filiação divina, mas quis uma mãe humana: "Quis assumir em si o gênero masculino e na sua mãe honrou o gênero feminino... Se Cristo como homem aparecesse sem o contributo do gênero feminino, então as mulheres teriam razão para desesperar... Mas Ele quis venerar, recomendar e acolher os dois gêneros. Homens, não desespereis; Cristo dignou-se ser homem; Mulheres, não desespereis: Cristo dignou-se nascer de uma mulher. Ambos os gêneros contribuíram para a salvação: temos o masculino e o feminino - na fé não há homem nem mulher". 
Expressemo-lo de outra maneira. No drama da salvação não acontece como se Maria fizesse o seu papel e saísse de cena, como alguém que terminou a sua função. O papel da mulher na encarnação não se esgota em pouco tempo. É a permanência do ser de Deus na terra, com os homens, conosco, que também somos terra. Por isso, o Natal é uma festa de Maria e de Cristo ao mesmo tempo. Por isso, uma igreja da Natividade tem de ser uma Igreja de Maria. É com esses pensamentos que devemos olhar para a imagem antiquíssima e misteriosa, que os romanos chamam de "Salus populi Romani". 

RATZINGER, Joseph. Esplendor da Glória de Deus: Meditações para o Ano Litúrgico. Braga: Franciscana, 2005.