Mostrando postagens com marcador cantalamessa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cantalamessa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O nome próprio do Espírito Santo

São inúmeros os trechos do Novo Testamento em que o Espírito Santo é apresentado, direta ou indiretamente, como o dom de Deus. "Se tu conhecesses o dom de Deus...", diz Jesus à Samaritana (Jo 4,10); o contexto, que fala da água vida, sempre levou a pensar que se está a aludir ao Espírito Santo (cf. Jo 7,38s). Seja como for, o certo é que, nos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo é definido como "Dom de Deus": "Arrependei-vos[...]. Depois recebereis o dom do Espírito Santo. 
O genitivo "do" Espírito Santo significa não é senão o próprio Espírito Santo. Outras vezes, porém, o sujeito e o objeto do dom são distintos, e o Espírito Santo surge como o dom que o Pai ou Cristo concedem aos fiéis: "Por isto se conhece que permanecemos nele e ele em nós: ele concedeu-nos o dom do seu Espírito" (1 Jo 4,13). 
O próprio Espírito é denominado também "o dom celestial" (Hb 6,4), ou simplesmente, "o dom" que Deus concedeu aos apóstolos no Pentecostes (cf. At 11,17). 
O primeiro a valorizar este título bíblico do Espírito Santo foi Santo Irineu: "À Igreja foi confiado o dom de Deus, como outrora o sopro à criatura formada (Gn 2,7), para que todos os membros, dele partícipes, sejam vivificados". 

CANTALAMESSA, Raniero. Vem, Espírito Criador! Meditações sobre o Veni creator. São Paulo: Canção Nova. 2014.  

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O testemunho do pregador do Papa

É impressionante o testemunho dado pelo Frei Inácio Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia, há mais de trinta anos, desde João Paulo II até agora o Papa Francisco, sobre o seu batismo no Espírito Santo. Ele mesmo conta no seu livro Ungidos pelo Espírito Santo (Edições Loyola, SP, 1998, pp. 145-151). Este testemunho foi dado em um Retiro da RCC que ele pregou em 1992, na cidade de Monterrey, no México para cerca de 1.500 padres e 70 bispos. 
Isso aconteceu antes dele ser convidado pelo Papa João Paulo II para ser pegador dos retiros de Quaresma e de Advento da Casa Pontifícia, há mais de trinta anos. Ele afirma que "o batismo no Espírito  revelou-se um poderoso meio de reavivar a vida espiritual de milhões de pessoas, uma autêntica "corrente de graça", como apreciava defini-lo o cardeal Suenes" (p. 146). 
Ele começa contando que era cético em relação ao batismo no Espírito. Ele é religioso capuchinho, e era professor de História das Origens Cristãs e Diretor do Departamento de Ciências Religiosas da Universidade Católica do Sagrado Coração de Jesus de Milão. Mas ele diz que não estava satisfeito e "sentia vagamente a necessidade de uma mudança radical" (p. 147). 
Ele conta que 1974 começou a ouvir falar da RCC e disse à pessoa que lhe falou dela, que "não voltasse naquele lugar". Mas ele percebeu que os carismáticos ao invés de tratá-lo mal, por causa de suas duras críticas, o amavam e pediam que lhes dessem ensinamentos. E ele começou a ver que naqueles grupos havia algo parecido com o que acontecia na Igreja primitiva: amor entre eles, oração forte, caridade, amor a Igreja, ao Papa, a Virgem Maria...

Aquino, Felipe. Descerá sobre vós o Espírito Santo. São Paulo: Cléofas. 2015

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Palavra ou o silêncio?

Não faltaram tentativas para mudar a solene afirmação com que João dá início a seu Evangelho: “No princípio era a Palavra”. Na antiguidade, os gnósticos propunham a variante: “No princípio era o Silêncio” e Goethe faz seu Fausto dizer: “No princípio era a ação”. É interessante averiguar como o escritor chega a esta conclusão: “Não posso, diz Fausto, atribuir à ‘palavra’ um valor tão alto; talvez deva entender ‘o sentido’, mas pode o sentido ser aquilo que tudo opera e cria? Dever-se-á, então, dizer: ‘No princípio era a força’? Também não, pois que uma iluminação, sobrevinda de improviso, sugeriu a resposta: ‘No princípio era a ação’”. São, todavia, realmente necessárias e justificáveis tais tentativas de correção? O Verbo, o Logos de João contém todos os significados assinalados por Goethe em outros termos. E isso, como podemos constatar no restante do prólogo, é luz, é vida e é força criadora. É “palavra produtiva”: “ele mandou e foram criados” (Sl 148,5). Ao falar, Deus
cria. A diferença entre uma proposição especulativa ou teórica (por exemplo, “o homem é um animal racional”) e uma proposição operativa ou prática (por exemplo, Fiat lux, “faça-se a luz”) está em que a primeira considera o elemento como já existente, ao passo que a segunda o faz existir, chama-o ao ser.
Assim sendo, o fato que no princípio era o Silêncio é verdadeiro, desde que se entenda por silêncio a ausência de toda voz e palavra de criatura; é falso, se por silêncio se entender também a ausência de palavra em Deus. E é precisamente deste silêncio das coisas, e não de um silêncio primordial, que fala o texto da Sabedoria aplicado pela liturgia ao Natal de Cristo: “Quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono real, precipitou-se...” (Sb 18,14-15).
O pensamento cristão lutou para conferir à expressão “no princípio” o verdadeiro significado entendido por João. Antes de tudo, precisou libertar-se da ideia de que o Verbo foi proferido pelo Pai somente no momento de criar o mundo, quando pronunciou o fatídico Fiat lux, “faça-se a luz”. Uma solução provisória, neste sentido, consistiria em distinguir o Verbo enquanto proferido (Logos proforikos), que começa a existir no momento da criação, do Verbo enquanto inato em Deus (Logos endiathetos) que existe desde a eternidade. Entretanto, a solução definitiva só se obteve no Concílio de Niceia, em que os padres rejeitaram a ideia de que “houve um tempo em que o Verbo não existia”. O Filho de Deus é eterno também como “Verbo proferido”, pois desde sempre o Pai “pronuncia” seu Verbo e mesmo Ele próprio, enquanto Pai, não existiria ab aeterno, se ab aeterno não tivesse um Filho que é o Verbo.
O “princípio” em que João coloca a Palavra é, portanto, um princípio absoluto, que está fora do tempo. Se houver alguma alusão ao texto do Gênesis – “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1) –, deve ser entendida no sentido de que, no momento em que todas as coisas começam a existir, o Verbo “era” já existia.

CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério da Palavra de Deus. São Paulo: Canção Nova, 2014.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Glória a Deus e Paz aos Homens

O acontecimento do nascimento do Salvador, como aquele da encarnação, tem também no evangelho de Lucas o seu cântico e é o Glória a Deus, cantado pelos anjos na noite de Natal. Os cânticos representam - dizia - o exórdio da liturgia natalina, enquanto celebração festiva e pneumática dos eventos do nascimento e infância de Cristo. Por isso eles entraram a fazer parte, desde o início, da liturgia cristã e ocupam nela, até agora, um lugar relevante: o Benedictus, o Magnificat e o Nunc dimittis na liturgia das horas, - respectivamente nas laudes, nas vésperas e nas completas - e o Glória definitivamente na liturgia eucarística. Ao breve cântico dos anjos (Lc 2, 13-14), foram acrescentadas bem cedo, desde o II século, algumas aclamações a Deus ("Te louvamos, te bendizemos...") em uso na língua hebraica e no Novo Testamento, seguidas, um pouco mais tarde, por uma série de invocações a Cristo ("Senhor Deus, Cordeiro de Deus") e assim ampliado, o texto foi introduzido na VI século, na Missa do Natal e depois em outras Missas festivas, onde permaneceu até hoje com o nome de "grande doxologia". 
O Glória, cantado ou recitado no início da Missa, constitui um apelo ao Natal inserido no coração mesmo do mistério da ceia, significando a continuidade entre o nascimento e a morte de Cristo, entre o Natal e a Páscoa, no interior de um mesmo mistério de salvação. Santo Agostinho distinguia, no seu tempo, dois modos de celebrar um acontecimento da história da salvação: a modo de mistério e a modo de simples aniversário. Na celebração a modo de aniversário, não se requer outra coisa - dizia 0 senão "indicar com uma solenidade religiosa o dia do ano no qual ocorre a recordação do próprio acontecimento"; na celebração a modo de mistério ("in sacramento"), "não só se comemora um acontecimento, mas se faz também de modo que se compreenda o seu significado e se acolha piedosamente". Ele considerava a Páscoa uma celebração mistérica, embora colocasse o Natal entre as celebrações a modo de aniversário (Sto. Agostinho, Epist. 55, 1,2; CELS 34,1. p.170). O santo falava assim porque o Natal tinha sido apenas introduzido recentemente entre as festividades da Igreja e não fora ainda aprofundado todo o seu rico conteúdo também mistérico. Nós hoje não podemos mais manter aquela distinção. O Natal que celebramos não é apenas uma "recordação", mas é um "mistério", que exige também ele ser compreendido no seu significado para nós. São Leão Magno iluminava já este significado mistérico do Natal, falando do "mistério do nascimento de Cristo" e dizendo que "os filhos da Igreja foram gerados com Cristo no seu nascimento, como foram crucificados com ele na paixão e ressuscitados com ela na ressurreição (Ser. VI di Natale, 2; PL 54,213).

CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério do Natal. São Paulo: Santuário, 2005.