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quarta-feira, 8 de março de 2017

Por que e como devemos amar a Deus

Queres então saber de mim por qual motivo e em que medida devemos amar a Deus? Bem, digo que o motivo de nosso amor por Deus é o próprio Deus, e que a medida desse amor é amar sem medida. Está suficientemente claro? Sim, talvez, para um homem inteligente, mas devo falar para sábios e ignorantes, e se já disse de modo claro para os primeiros, devo também considerar os segundos. É então para eles que vou desenvolver minhas ideias, e procurar aprofundá-las. Digo que temos duas razões para Deus ser amado por si mesmo: não há nada de mais justo e nada de mais vantajoso. Com efeito, esta pergunta "por que devemos amar a Deus"? apresenta-se sob dois aspectos: por que Deus merece vosso amor, e que vantagem temos em amá-lo. Vejo uma resposta para ambas: a razão pelo qual devemos amar a Deus é ele mesmo. Do ponto de vista do merecimento, o grandioso Deus se deu a nós, a despeito de nossa indignidade. Com efeito, o que poderia nos dar que valesse mais do que ele mesmo? Quando perguntamos quais razões temos para amar a Deus, e como adquiriu o direito ao nosso amor, constatamos que a principal é que ele nos amou primeiro. Merece, então, nossa retribuição, sobretudo se consideramos quem é aquele que ama, quem são os amados e como os ama. Quem é, com efeito, aquele que nos ama? É aquele a quem todo espírito presta este testemunho: "És meu Deus, e não precisas do que tenho" (Sl 15,2). E esse amor em Deus não é a verdadeira caridade, visto que não ocorre por interesse? Mas a quem se dirige esse amor gratuito? O Apóstolo responde: "Quando éramos inimigos de Deus é que nos reconciliamos com ele" (Rm 5,10). Deus nos amou com um amor gratuito, mesmo sendo seus inimigos. 

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Tratado sobre o Amor de Deus. São Paulo: Paulus. 2015

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Recriar a vida: oitavo dia da criação?

O crescente conhecimento científico e poder de intervenção sobre a vida humana que a humanidade conquistou nos últimos anos, especificamente na área da biologia e genética, com possibilidade real de re-criação da vida, assusta muita gente. Manchetes na mídia alardeiam, com frequência, a expressão os "cientistas não deveriam brincar de Deus". Temos uma questão teológica implícita nessa frase. 
Na maioria das vezes, a expressão "brincar de Deus" destina-se a proibir certas formas de pesquisa científica e terapia médica, significando que o ser humano não tem o direito de alterar os planos estruturais dos organismos vivos, inclusive do seu próprio, pois isso se constituiria em uma usurpação do privilégio de Deus criador. A todo e qualquer avanço científico, levanta-se a placa: "Não brincarás de Deus". Diante dos extraordinários progressos da biotecnologia, a expressão bíblica de que o ser humano foi criado à "imagem e semelhança de Deus" está sendo substituída por outra: "Autocriado à sua própria imagem e semelhança". Quando do anúncio da clonagem de Dolly em 1997, perguntou-se se tal fato seria um "milagre pelo qual deveríamos agradecer a Deus ou se se constituiria numa nova e abominável forma de tomarmos o lugar de Deus". 
O conceito de criação inclui a noção da imago Dei, como afirmam teólogos contemporâneos, o ser humano é "co-criador criado" de Deus. Claro que aqui temos uma tensão. De um lado, a vocação bíblica do ser humano, que leva adiante a obra do Criador, e de outro temos a tendência prometéica de este ser querer tornar-se Deus. A expressão "co-criador criado" implica ver que a criação ou a natureza não são estáticas, mas estão num processo de evolução da creatio contínua de Deus. O ser humano continua a criação, desvendando os segredos e mistérios da criação, aperfeiçoando-a. 

PESSINI, Léo, Bioética. Um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas. 2009


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O estudo da Religião

O estudo da religião é o mais necessário de todos. Os outros são de proveito para a vida no tempo. E a religião é necessária para o tempo e a eternidade. 
Nada pode haver de mais importante do que assegurar a salvação da própria alma. O meio de atingir esse objetivo supremo é crer que Deus ensinou e fazer o que Deus mandou. 
Sendo Deus a Suprema Verdade e o Sumo Bem, Ele só nos ensina o que é verdadeiro e só nos prescreve o que é bom. Não se trata, assim, de qualquer manifestação de arbítrio do Criador sobre as criaturas, mas de uma estupenda manifestação de Amor. Ensinando a Verdade e o Bem, Deus ilumina nossos caminhos e previne para que nos desviemos das sendas do erro. 
Ficamos sabendo o que devemos crer e o que devemos fazer pelo estudo da religião. 
Não se deve, pois, pensar que a religião é uma espécie de compartimento estanque na vida. Ou alguma coisa para usar de vez em quando - por exemplo, quando se vai à Missa - e depois guardar na gaveta. 
A este respeito é bom lembrar uma parábola do Evangelho: "O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha até que fique fermentada toda a massa" (Mt 13,33). 
Assim, a religião deve orientar toda a nossa vida, todos os nossos atos. A religião é vida. Não apenas um conjunto de preceitos proibitivos com vistas a não pecar, mas uma diretriz positiva para o bem, para a prática das virtudes, dando sentido à existência humana, que sem ela se torna incompreensível. 
Mais ainda. É a nossa vida em Deus e a vida de Deus em nós, habitando em nossas almas pela graça santificante. 

SOUZA, José Pedro Galvão de. Para conhecer e viver as verdades da fé. Belo Horizonte: Edições Cristo Rei. 2013. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Deus ou Nada

Uma sociedade sem Deus, que tem por letra morta um questionamento espiritual, mascara o vazio de seu materialismo enganador do tempo para melhor esquecer a eternidade. Mais a matéria estende seu domínio, mais o homem tem prazer em diversões sofisticadas, nascisistas e perversas; mais o homem esquece Deus, e mais ele se observa a si mesmo. Olhando-se, vê as deformações e a feiura que suas devassidões inscrustaram em sua face. Então, para de dar à ilusão que permanece ainda o ser luminoso do esplendor original da criatura de Deus, ele se maquia. Mas o mal escondido se assemelha à brasa viva sob a cinza. 
Sem Deus, o homem constrói seu inferno na terra. As diversões e os prazeres podem se tornar verdadeiros flagelos para a alma quando o afundam na pornografia, na droga, na violência e em todas as perversões possíveis. 
Há uma grande tristeza em querer prazeres sem limites, quando a mais bela alegria é permanecer simplesmente com Deus, deixando que Ele nos envolva de luz e de pureza. 


SARAH, CARDEAL ROBERT. Deus ou Nada. Entrevista sobre a Fé. São Paulo: Fons Sapientiae. 2016

sábado, 14 de janeiro de 2017

É a imagem viva de Deus

Maria é chamada por Santo Agostinho, e é-o efetivamente, Forma Dei, imagem viva de Deus; isto quer significar que somente n´Ela foi formado Deus como homem perfeito, sem faltar-Lhe qualquer traço da divindade; e também que só n´Ela pode o homem ser transformado em Deus - tanto quanto a natureza humana o permita-, pela graça de Jesus Cristo. 
Um escultor pode reproduzir ao natural uma estátua ou um retrato de duas maneiras: aplicando todo o seu talento na matéria dura e informe, usando de toda a força, de toda a ciência e perfeição das suas ferramentas para reproduzir a estátua; ou então, metendo-a simplesmente num molde. 
O primeiro método é demorado, é difícil e está sujeito a diversos inconvenientes: por vezes bastará uma pancada de cinzel ou uma martelada mal dada para estragar toda a obra. 
O segundo, ao contrário, é rápido, suave e delicado, quase sem despesa nem fadiga, desde que o molde seja perfeito e que reproduza com exatidão, e desde que a matéria utilizada seja maleável e não oponha resistência ao seu manejo. 
É Maria o maravilho molde de Deus, criado pelo Espírito Santo para formar em perfeição um Homem-Deus através da união hipostática (união das duas naturezas), e para tornar o homem participante da natureza divina mediante a graça. Maria é esse molde a que não falta o mais leve traço da divindade: quem for metido nele e se deixar plasmar por ele, adquire todos os traços de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, e isso de forma suave e em consonância com a fragilidade humana, sem tantos sacrifícios nem fadigas; e ainda de forma segura, sem medo de ilusões, já que o demônio não teve e nunca virá a ter qualquer acesso a Maria; finalmente e ainda de maneira santa e imaculada, sem a mais leve sombra de pecado. 

Montfort, São Luís. O Segredo de Maria. São Paulo: Cléofas. 2012. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Palavra ou o silêncio?

Não faltaram tentativas para mudar a solene afirmação com que João dá início a seu Evangelho: “No princípio era a Palavra”. Na antiguidade, os gnósticos propunham a variante: “No princípio era o Silêncio” e Goethe faz seu Fausto dizer: “No princípio era a ação”. É interessante averiguar como o escritor chega a esta conclusão: “Não posso, diz Fausto, atribuir à ‘palavra’ um valor tão alto; talvez deva entender ‘o sentido’, mas pode o sentido ser aquilo que tudo opera e cria? Dever-se-á, então, dizer: ‘No princípio era a força’? Também não, pois que uma iluminação, sobrevinda de improviso, sugeriu a resposta: ‘No princípio era a ação’”. São, todavia, realmente necessárias e justificáveis tais tentativas de correção? O Verbo, o Logos de João contém todos os significados assinalados por Goethe em outros termos. E isso, como podemos constatar no restante do prólogo, é luz, é vida e é força criadora. É “palavra produtiva”: “ele mandou e foram criados” (Sl 148,5). Ao falar, Deus
cria. A diferença entre uma proposição especulativa ou teórica (por exemplo, “o homem é um animal racional”) e uma proposição operativa ou prática (por exemplo, Fiat lux, “faça-se a luz”) está em que a primeira considera o elemento como já existente, ao passo que a segunda o faz existir, chama-o ao ser.
Assim sendo, o fato que no princípio era o Silêncio é verdadeiro, desde que se entenda por silêncio a ausência de toda voz e palavra de criatura; é falso, se por silêncio se entender também a ausência de palavra em Deus. E é precisamente deste silêncio das coisas, e não de um silêncio primordial, que fala o texto da Sabedoria aplicado pela liturgia ao Natal de Cristo: “Quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono real, precipitou-se...” (Sb 18,14-15).
O pensamento cristão lutou para conferir à expressão “no princípio” o verdadeiro significado entendido por João. Antes de tudo, precisou libertar-se da ideia de que o Verbo foi proferido pelo Pai somente no momento de criar o mundo, quando pronunciou o fatídico Fiat lux, “faça-se a luz”. Uma solução provisória, neste sentido, consistiria em distinguir o Verbo enquanto proferido (Logos proforikos), que começa a existir no momento da criação, do Verbo enquanto inato em Deus (Logos endiathetos) que existe desde a eternidade. Entretanto, a solução definitiva só se obteve no Concílio de Niceia, em que os padres rejeitaram a ideia de que “houve um tempo em que o Verbo não existia”. O Filho de Deus é eterno também como “Verbo proferido”, pois desde sempre o Pai “pronuncia” seu Verbo e mesmo Ele próprio, enquanto Pai, não existiria ab aeterno, se ab aeterno não tivesse um Filho que é o Verbo.
O “princípio” em que João coloca a Palavra é, portanto, um princípio absoluto, que está fora do tempo. Se houver alguma alusão ao texto do Gênesis – “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1) –, deve ser entendida no sentido de que, no momento em que todas as coisas começam a existir, o Verbo “era” já existia.

CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério da Palavra de Deus. São Paulo: Canção Nova, 2014.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Outros nomes de Deus

O Deus dos patriarcas é descrito com o nome de "El" ou "Elohim". O substantivo El se encontra presente em toda a área semítica (exceto entre os Etíopes), é o nome semítico mais antigo para Deus. O significado original do nome não é seguro, mas provavelmente significa o "ser forte", "aquele que reina", "o poderoso". Este nome quer significar a potência divina, sua glória, sua superioridade. Coda afirma que o nome El deriva da raiz semítica ´il, que indica o rei ou o pai dos deuses. A Vulgata traduz El por Deus Fortis (Deus forte). O termo pode ser usado como nome genérico (divindade) ou como nome próprio. No AT, este nome pode designar seja uma divindade pagã, seja o próprio Deus de Israel. 
Israel, frequentemente, usa esse nome associando-o com um elemento de caráter pessoal. Fala-se de "El de Abraão (Gn 24,12), de "El de Isaac" (Gn 46,1) e do "El dos vossos pais" (Ex 3,13-15). Deus não esta ligado primordialmente a um lugar, mas é um "Deus pessoal", Deus de um povo. Joseph Ratzinger afirma que Deus não é entendido na sua relação com o espaço ou com o tempo, mas na relação do "Eu" e do "Tu". O seu poder não está limitado por um espaço, por nada que exista de criado; Ele acompanha o seu povo em todo lugar. 
Importante é também o plural "Elohim" (aparece cerca de 2.600 vezes na Bíblia). Apesar da forma plural, no pensamento hebraico, este termo é entendido como um singular. Provavelmente é uma dilatação do singular ´Eloah. O Plural indica que o titular do nome está acima de todos os outros deuses, representa tudo o que eles possam ser ou fazer (Elohim possui todos os atributos dos diversos El). IHWH é o verdadeiro Deus (Elohim) e nenhum outro (Dt 4,35). 
Vejamos outros nomes utilizados para designar Deus no AT: 
El Shaddai: significa provavelmente, "Deus gigantesco", "Deus onipotente" ou "Deus da montanha". A versão da LXX traduz o termo por "Pantokrátor", a Vulgata por "omnipotens" (Gn 49,25). 
El Eljon: significa provavelmente, "Deus altíssimo" ou "Deus excelso" (Salmo 83,19). 
El Olam: significa provavelmente, o "Deus antiquíssimo" (Gn 21,33) ou "Deus eterno" ou "Deus venerável". 
Elohim Sabaoth: significa "Deus dos exércitos" (Salmo 80,4). 
Adonai: provém de Adom (cananeu), torna-se o modo comum de referir-se a Deus depois do Exílio. Significa literalmente "meu Senhor", mas o uso deste termo normalmente se associava a ideia de "Senhor de toda a Terra" (Js 3,11.13; Miq 4,3) e de "Senhor os Senhores" (Dt 10,17; Salmo 136,3). Tendo em vista a riqueza de seu significado, este termo, pouco a pouco, vai, na literatura hebraica, substituindo o tetragrama santo. 

DANTAS, João Paulo de M.. Deus uno e trino: Uma introdução à teologia trinitária. Aquiraz: Shalom, 2013.