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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Os santos, modelos evangélicos a serem imitados

Os santos, cada qual a seu modo, viveram o mistério de Cristo, revelando assim uma faceta do Evangelho. 
Podemos dizer que existem três Evangelhos: o Evangelho escrito, segundo os quatro evangelistas; o Evangelho vivido, os santos canonizados ou não; e o Evangelho vivo, os cristãos de hoje e, especialmente, os religiosos e religiosas, tornando presentes os vários carismas dos seus fundadores. 
Os santos constituem o Evangelho vivido. Comemorando os santos, a Igreja evoca e assim torna presente a respectiva faceta do Evangelho vivida pelo santo. Pela comemoração dos santos, a Igreja assume a própria vocação evangélica, ou seja, a faceta do mistério de Cristo revelada pelo santo, que vai se realizando em sua própria caminhada. 
Os santos, primeiramente, apresentam uma mensagem geral: anunciam o Evangelho, o mistério pascal, Jesus Cristo. Eles os revelam e conduzem a eles. 
Depois, temos uma mensagem comum a certas categorias ou grupos de santos. Entre os santos, temos alguns que não se enquadram  em determinado grupo. Excepcionalmente rica é a mensagem de São João Batista, ao mesmo tempo profeta, precursor, penitente, batista e mártir. Para se chegar a Cristo, o cristão necessariamente deverá passar por ele. São José é outra figura de destaque dentro do mistério de Cristo. José está presente e atua, silenciosamente acolhendo, defendendo, ensinando, conduzindo os passos onde o Cristo nasce, dá os seus primeiros passos e cresce em idade e graça. Santa Maria, Nossa Senhora, Mãe de Jesus Cristo e Mãe da Igreja, naturalmente ocupa um lugar todo especial.

BECKHAUSER, Alberto. Os santos na liturgia. Testemunhas de Cristo. Petrópolis: Vozes. 2013

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Palavra ou o silêncio?

Não faltaram tentativas para mudar a solene afirmação com que João dá início a seu Evangelho: “No princípio era a Palavra”. Na antiguidade, os gnósticos propunham a variante: “No princípio era o Silêncio” e Goethe faz seu Fausto dizer: “No princípio era a ação”. É interessante averiguar como o escritor chega a esta conclusão: “Não posso, diz Fausto, atribuir à ‘palavra’ um valor tão alto; talvez deva entender ‘o sentido’, mas pode o sentido ser aquilo que tudo opera e cria? Dever-se-á, então, dizer: ‘No princípio era a força’? Também não, pois que uma iluminação, sobrevinda de improviso, sugeriu a resposta: ‘No princípio era a ação’”. São, todavia, realmente necessárias e justificáveis tais tentativas de correção? O Verbo, o Logos de João contém todos os significados assinalados por Goethe em outros termos. E isso, como podemos constatar no restante do prólogo, é luz, é vida e é força criadora. É “palavra produtiva”: “ele mandou e foram criados” (Sl 148,5). Ao falar, Deus
cria. A diferença entre uma proposição especulativa ou teórica (por exemplo, “o homem é um animal racional”) e uma proposição operativa ou prática (por exemplo, Fiat lux, “faça-se a luz”) está em que a primeira considera o elemento como já existente, ao passo que a segunda o faz existir, chama-o ao ser.
Assim sendo, o fato que no princípio era o Silêncio é verdadeiro, desde que se entenda por silêncio a ausência de toda voz e palavra de criatura; é falso, se por silêncio se entender também a ausência de palavra em Deus. E é precisamente deste silêncio das coisas, e não de um silêncio primordial, que fala o texto da Sabedoria aplicado pela liturgia ao Natal de Cristo: “Quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono real, precipitou-se...” (Sb 18,14-15).
O pensamento cristão lutou para conferir à expressão “no princípio” o verdadeiro significado entendido por João. Antes de tudo, precisou libertar-se da ideia de que o Verbo foi proferido pelo Pai somente no momento de criar o mundo, quando pronunciou o fatídico Fiat lux, “faça-se a luz”. Uma solução provisória, neste sentido, consistiria em distinguir o Verbo enquanto proferido (Logos proforikos), que começa a existir no momento da criação, do Verbo enquanto inato em Deus (Logos endiathetos) que existe desde a eternidade. Entretanto, a solução definitiva só se obteve no Concílio de Niceia, em que os padres rejeitaram a ideia de que “houve um tempo em que o Verbo não existia”. O Filho de Deus é eterno também como “Verbo proferido”, pois desde sempre o Pai “pronuncia” seu Verbo e mesmo Ele próprio, enquanto Pai, não existiria ab aeterno, se ab aeterno não tivesse um Filho que é o Verbo.
O “princípio” em que João coloca a Palavra é, portanto, um princípio absoluto, que está fora do tempo. Se houver alguma alusão ao texto do Gênesis – “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1) –, deve ser entendida no sentido de que, no momento em que todas as coisas começam a existir, o Verbo “era” já existia.

CANTALAMESSA, Raniero. O Mistério da Palavra de Deus. São Paulo: Canção Nova, 2014.