segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A filosofia cristã e a Sagrada Escritura

O aparecimento do cristianismo foi bem diverso do das antigas filosofias. Na verdade, ele nem sequer se apresentou como filosofia, mas como religião. Sua primeira manifestação exterior liga-se a uma série de fatos históricos. 
A um pequeno grupo de galileus incultos coube anunciar ao mundo a boa-nova do aparecimento, no país da Palestina, de um homem extraordinário, chamado Jesus. Nascido de uma virgem, num estábulo de Belém, apresentou-se como o Messias anunciado pelos profetas ao povo judeu e a toda a humanidade. Viveu como homem entre os homens, e não obstante declarou ser Deus, confirmando seu testemunho com milagres. Prometeu a vinda do Reino de Deus, a que os homens deviam preparar-se pela penitência e pelas boas obras. Depois de percorrer a Palestina, fazendo o bem e operando milagres, morreu na cruz, dando cumprimento às profecias e resgatando a humanidade pecadora. Ao terceiro dia ressuscitou do sepulcro, demonstrando definitivamente sua divindade. Sua vitória sobre a morte constitui um penhor de ressurreição para todos os que lhe aceitam a doutrina e se deixam batizar. Finalmente subiu ao céu, donde tornará com grande poder e glória, para julgar os vivos e os mortos e fundar um novo reino que não terá fim. A imagem temporal deste reino é a comunidade dos seus discípulos, presidida pelos apóstolos. 

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Vozes, 2012.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O testemunho do pregador do Papa

É impressionante o testemunho dado pelo Frei Inácio Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia, há mais de trinta anos, desde João Paulo II até agora o Papa Francisco, sobre o seu batismo no Espírito Santo. Ele mesmo conta no seu livro Ungidos pelo Espírito Santo (Edições Loyola, SP, 1998, pp. 145-151). Este testemunho foi dado em um Retiro da RCC que ele pregou em 1992, na cidade de Monterrey, no México para cerca de 1.500 padres e 70 bispos. 
Isso aconteceu antes dele ser convidado pelo Papa João Paulo II para ser pegador dos retiros de Quaresma e de Advento da Casa Pontifícia, há mais de trinta anos. Ele afirma que "o batismo no Espírito  revelou-se um poderoso meio de reavivar a vida espiritual de milhões de pessoas, uma autêntica "corrente de graça", como apreciava defini-lo o cardeal Suenes" (p. 146). 
Ele começa contando que era cético em relação ao batismo no Espírito. Ele é religioso capuchinho, e era professor de História das Origens Cristãs e Diretor do Departamento de Ciências Religiosas da Universidade Católica do Sagrado Coração de Jesus de Milão. Mas ele diz que não estava satisfeito e "sentia vagamente a necessidade de uma mudança radical" (p. 147). 
Ele conta que 1974 começou a ouvir falar da RCC e disse à pessoa que lhe falou dela, que "não voltasse naquele lugar". Mas ele percebeu que os carismáticos ao invés de tratá-lo mal, por causa de suas duras críticas, o amavam e pediam que lhes dessem ensinamentos. E ele começou a ver que naqueles grupos havia algo parecido com o que acontecia na Igreja primitiva: amor entre eles, oração forte, caridade, amor a Igreja, ao Papa, a Virgem Maria...

Aquino, Felipe. Descerá sobre vós o Espírito Santo. São Paulo: Cléofas. 2015

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Da pureza de coração e de sua importância

I - A pureza de coração consiste em não ter no coração coisa alguma contrária a Deus e à operação da graça. 
II - O primeiro meio para chegar à perfeição é a pureza de coração. Depois dela vêm os preceitos e a doutrina espiritual dos livros, depois a direção e a fiel cooperação à graça. 
III - Quando o coração está bem puro, Deus enche a alma e todas as suas potências com sua presença e o seu amor: a memória, o entendimento, a vontade. 
Assim a pureza de coração conduz à união divina e a isso não se pode chegar por outros caminhos. 
IV - O caminho mais curto e mais seguro para chegar à perfeição, é a preparação para a pureza de coração antes que para o exercício das virtudes, porque Deus está pronto para nos conceder todas as espécies de graça desde que não lhe ponhamos obstáculos. 
Santo Inácio dizia que os próprios santos punham grandes obstáculos às graças de Deus. 
V - Entre todos os exercícios da vida espiritual, a nenhum o demônio opõe maior obstáculo que à pureza de coração. 
Ele nos permitirá fazer atos exteriores de virtude. 

DEHON, Padre Léon. A vida interior. Seus princípios, suas vias diversas e sua prática; conforme os melhores autores ascéticos. São Paulo: Livre, 2016. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Esperança nossa, salve

Não suportam os hereges modernos que nós saudemos e chamemos a Maria nossa esperança. Dizem que só Deus é nossa esperança, e que Ele amaldiçoa quem põe sua confiança na criatura. "Maldito o homem que confia no homem" (Jr 17,5). Maria é criatura, objetam eles; como, pois, uma criatura há de ser a nossa esperança? Isto dizem os hereges. Entretanto quer a Santa Igreja que cada dia todos os eclesiásticos e todos os religiosos em voz alta, e em nome de todos os fiéis, invoquem e chamem a Maria com este nome de esperança nossa. 
De dois modos, diz o Angélico S. Tomás, podemos pôr nossa esperança numa pessoa, como causa principal ou como causa mediante. Quem deseja obter do rei uma graça, espera alcançá-la do rei como soberano senhor, e espera obtê-la do seu ministro ou valido, como intercessor. No último caso a graça concedida veio do rei, mas por intermédio do seu valido. Portanto, quem pretende a graça com razão chama aquele seu intercessor a sua esperança. Por ser de infinita bondade, sumamente deseja o Rei do céu enriquecer-nos com as suas graças. Mas porque para tanto é necessária da nossa parte a confiança, deu-nos o Senhor, para aumentá-la, sua própria Mãe por advogada e intercessora, e concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer. Por esta razão quer também que nela coloquemos a esperança de nossa salvação e de todo o nosso bem. Sem dúvidas são amaldiçoados pelo Senhor, como diz Jeremias, aqueles que põem sua confiança na criatura unicamente. Tal é o procedimento dos pecadores que, em troca da amizade e dos préstimos de um homem, não se incomodam de ofender a Deus. São abençoados pelo Senhor e lhes são agradáveis, porém, os que esperam em Maria, tão poderosa como Mãe de Deus, para impetrar-lhe as graças e a vida eterna. Pois assim quer Deus ver honrada aquela excelsa criatura, que neste mundo o amou e honrou mais do que todos os anjos e homens juntos. 

SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Glórias de Maria. São Paulo: Santuário. 1989

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Da caridade para com o próximo

O Servo - Não foi em vão, fervorosíssima Virgem, quando saístes da solidão de Nazaré para o rumor do mundo. O que a isso vos levou senão o espírito de caridade? Felizes as colinas que receberam as impressões de vossos passos! Montanhas da Judeia, estremecei de alegria!
Digna Mãe do Deus de Caridade, apenas vos informara o Anjo sobre o estado de vossa santa prima Isabel, pressa vos destes em visitá-la. Com apressados passos, diz o Evangelho, seguistes as inspirações do Espírito Santo, o qual sempre exige das criaturas a presteza no cumprir o que Ele inspira. As montanhas que teríeis de transpor não detiverem o vosso caminhar. A caridade cumpre o seu dever corajosa e generosamente. Durante algum tempo, tivestes que abandonar as doçuras do vosso retiro. A caridade tem os seus direitos, e a estes devem submeter-se os prazeres da própria piedade. Não é coisa efêmera a vossa caridade. Cerca de três meses permanecestes em casa de Isabel, a fim de lhe prodigalizares cuidados e atenções. 
Que frutos preciosos de santidade não teriam sido os que brotaram dessa visita de caridade! Cheia ficou Isabel do Espírito Santo e santificado João Batista no próprio seio materno. Decerto, já Isabel e o seu esposo viviam na prática das virtudes. Todavia, mercê dos vossos exemplos, mais ainda tiveram que aprender para maior perfeição daquelas virtudes. 

Imitação de Maria. São Paulo: Cultor de Livros. 2014. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Deus ou Nada

Uma sociedade sem Deus, que tem por letra morta um questionamento espiritual, mascara o vazio de seu materialismo enganador do tempo para melhor esquecer a eternidade. Mais a matéria estende seu domínio, mais o homem tem prazer em diversões sofisticadas, nascisistas e perversas; mais o homem esquece Deus, e mais ele se observa a si mesmo. Olhando-se, vê as deformações e a feiura que suas devassidões inscrustaram em sua face. Então, para de dar à ilusão que permanece ainda o ser luminoso do esplendor original da criatura de Deus, ele se maquia. Mas o mal escondido se assemelha à brasa viva sob a cinza. 
Sem Deus, o homem constrói seu inferno na terra. As diversões e os prazeres podem se tornar verdadeiros flagelos para a alma quando o afundam na pornografia, na droga, na violência e em todas as perversões possíveis. 
Há uma grande tristeza em querer prazeres sem limites, quando a mais bela alegria é permanecer simplesmente com Deus, deixando que Ele nos envolva de luz e de pureza. 


SARAH, CARDEAL ROBERT. Deus ou Nada. Entrevista sobre a Fé. São Paulo: Fons Sapientiae. 2016

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Os pilares da fé islâmica

O centro da fé muçulmana é a confissão que todo crente deve fazer, chamada de Shahada: "Não há outro Deus para além de Allah e Muhammad é o seu mensageiro". Os verdadeiros muçulmanos são "aqueles que creem em Deus e em Seu mensageiro e não duvidam, e se sacrificam pela causa de Deus com seus bens e suas vidas. Estes são os verdadeiros", em poucas palavras, são aqueles que praticam o Islã, ou seja, os que se submetem à Vontade de Deus, contida no Corão e transmitida pelo Profeta. 
Os muçulmanos veem Maomé como escolhido por Deus, que viveu integralmente o Corão, motivo pelo qual podem basear seu comportamento no exemplo do Profeta. E uma vez que Maomé sabia o que Deus queria em cada ocasião, obedecer a Maomé é obedecer a Deus e desobedecer-lhe é desobedecer a Deus. 
A Sunnah é outro livro de referência para o Islã, pois nele estão registrados os ditos e feitos de Maomé, conforme testemunho de seus companheiros. A Sunnah traz diretrizes específicas para a vivência dos princípios mais gerais do Alcorão. Serve como guia e orientação. 
Existem na prática de fé muçulmana cinco pilares que sustentam e dão ritmo à vida dos fiéis: 
a) Professar e aceitar o credo (Chahada ou Shahada); 
b) Orar cinco vezes ao longo do dia (Salá, Salat ou Salah); 
c) Pagar dádivas rituais (Zakat ou Zakah); ;
d) Observar as obrigações do Ramadam (Saum ou Siyam); 
e) Fazer a peregrinação a Meca (Hajj ou Haj). 

BETTENCOURT, Estêvão Tavares. Crenças, religiões, igrejas, seitas. Quem são? Rio de Janeiro: Editora Santo Antonio. 2012.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

São Máximo, o Confessor

Hoje gostaria de apresentar a figura de um dos grandes Padres da Igreja do Oriente do tempo tardio. Trata-se de um monge, São Máximo, que da tradição cristã mereceu o título de Confessor, pela intrépida coragem com que soube testemunhar "confessar" também com o sofrimento, a integridade da sua fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Salvador do mundo. Máximo nasceu na Palestina, a terra do Senhor, por volta de 580. Desde jovem foi iniciado na vida monástica e no estudo das Escrituras, também através das obras de Orígenes, o grande mestre que já no século III conseguira "fixar" a tradição exegética alexandrina. 
De Jerusalém, Máximo transferiu-se para Constantinopla, e dali, por causa das invasões bárbaras, refugiou-se na África. Aí, distinguiu-se com extrema coragem na defesa da ortodoxia. Máximo não aceitava qualquer diminuição da humanidade de Cristo. Nascera a teoria segundo a qual em Cristo haveria somente uma vontade, a divina. Para defender a unicidade da sua pessoa, negavam que nele existisse uma verdadeira vontade humana. E, à primeira vista, poderia até parecer uma coisa positiva, que em Cristo houvesse uma única vontade. Mas São Máximo compreendeu imediatamente que isto destruiria o mistério da salvação, porque uma humanidade sem vontade, um homem sem vontade não é um homem verdadeiro, é um homem incompleto. Portanto, o homem Jesus Cristo não seria um verdadeiro homem, não teria vivido o drama do ser humano, que consiste precisamente na dificuldade de conformar a sua vontade com a verdade do ser. E assim, São Máximo afirma com grande decisão: a Sagrada Escritura não nos mostra um homem incompleto, sem vontade, mas um homem verdadeiramente completo: em Jesus Cristo, Deus assumiu realmente a totalidade do ser humano obviamente, exceto o pecado e, portanto, também uma vontade humana.  

BENTO XVI. Os Padres da Igreja II. De São Leão Magno a São Bernardo de Claraval. São Paulo: Ecclesiae: 2013