domingo, 19 de março de 2017

A importância e o exemplo de São José

Quando Deus deseja que alguém dê conta de determinada missão, oferece-lhe todas as graças necessárias para que ela seja cumprida. Depois de Maria, que levou Cristo no próprio ventre, ninguém teve missão tão importante quanto José. Aquele simples e humilde carpinteiro de Nazaré passou grande parte da vida ao lado da Virgem e do Salvador, servindo-lhes de guardião. Não houve, além de Maria, santo tão importante quanto são José. Ele foi maior que todos os apóstolos, foi maior que todos os profetas. 
Quantas graças esse homem não recebeu apenas por conviver e escutar Nossa Senhora? E ao meditar sobre os passos e o mistério daquele Menino que se desenvolvia diante de seus olhos? Como não deve ter crescido em santidade e em perfeição?
Por muitas razões, são José é modelo para todos os cristãos. Em primeiro lugar, destacou-se por sua obediência à vontade de Deus. Tudo o que Deus lhe pediu, José fez: aceitou Maria como esposa, assumiu o Menino, partiu para Belém, foi ao Egito, voltou a Nazaré... Como um garotinho dócil, nunca questionou seu Criador, nunca pediu explicações, nunca se rebelou, nunca fez corpo mole.. Mesmo com tantos motivos, José nunca duvidou ou desanimou. 

São José: o homem simples que aceitou a missão de ser pai do Filho de Deus. Rio de Janeiro: Petra, 2016. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Prioridade da vida interior sobre a vida ativa

Em Deus está a vida, toda a vida. Ele é a própria vida. Ora, não é nas obras exteriores, como a Criação, que o Ser infinito manifesta essa vida do modo mais intenso, mas sim no que a teologia chama operações ad intra: essa atividade inefável cujo termo é a geração perpétua do Filho e a incessante processão do Espírito Santo. Essa é, por excelência, a sua obra essencial, eterna. 
A vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo foi a realização perfeita do plano divino. Trinta anos de recolhimento, seguidos de quarenta dias de retiro e penitência, prepararam a sua curta carreira evangélica; e, durante as suas jornadas apostólicas, quantas vezes ainda, O vemos retirar-se para as montanhas ou para os desertos, a fim de orar: "Ele retirava-se para lugares solitários e entregava-Se aí à oração" (Lc 5, 16). Ou passar a noite a rezar: "Naqueles dias, Jesus foi para o monte a fim de fazer oração, e passou a noite a orar a Deus" (Lc 6,12). Rasgo ainda mais significativo: Marta deseja que o Senhor, condenando a suposta ociosidade da sua irmã, proclame a superioridade da vida ativa; a resposta de Jesus: "Maria escolheu a melhor parte" (Lc 10, 42), consagra a importância da vida interior. Jesus quis, pois, fazer-nos ver, claramente, a preponderância da vida de oração sobre a vida ativa. 
Os Apóstolos, fiéis aos exemplos do Mestre, reservaram para si o ofício da oração e o ministério da palavra, deixando as ocupações mais exteriores aos diáconos: "Quanto a nós, entregar-nos-emos, assiduamente, à oração e ao exercício da palavra" (At 6,4). 
Os Papas, os santos doutores e os teólogos afirmam, por sua vez, que a vida interior é superior à vida ativa.

CHAUTARD, Jean-Baptiste. A alma de todo o apostolado. São Paulo: Artpress. 2015. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Sagrada Escritura

Estudar a Sagrada Escritura é estudar o mais belo que existe. Hoje se ouve dizer com frequência: "Deus já não fala em nosso mundo; está calado". Não é certo! Deus sempre falou e segue falando. Faz isto através da sua Palavra contida na Bíblia. 
Queremos escutar a Deus? Abramos a Sagrada Escritura. Aí está tudo o que devemos fazer para chegarmos ao céu. Aí está o caminho para a verdadeira felicidade. Aí está a solução para todos nossos problemas. Só temos que abrir, ler, meditar, interiorizar, viver e transmitir essa mensagem de Deus para nós. 
A Bíblia não é letra morta ou muda. Ela nos interroga, interpela, anima, acusa, ensina, admoesta. A quem medita a Bíblia lhe acontecerá o que aconteceu aos discípulos de Emaús, cujos corações ardiam quando Jesus lhes explicou as Escrituras pelo caminho da vida (cf. Lc 24, 13-15). 
Abrir a Bíblia é se comprometer com Deus, que nos fala. Não se pode se aproximar da Bíblia como curioso, mas sim como criatura diante do Criador, como filho diante do seu Pai, como servo diante do seu Senhor. "Fala, Senhor, que o teu servo escuta". A Bíblia é um livro, não só para estudar, mas também para meditar, viver e transmitir. "Bem- aventurados os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática". (Lc 11, 28). 

RIVERO, Antonio. CURSO BÍBLICO PARA LEIGOS. A RIQUEZA DA PALAVRA DE DEUS ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Juiz de Fora: Martyria. 2014. 

domingo, 12 de março de 2017

O que significa ser santo?

Ao definir o que significa ser santo, corremos o risco de deturpar a realidade, acomodando ao nosso próprio conceito. Santo é uma destas palavras, como tantas outras, cujo sentido foi se transformando através dos tempos; antes temperança significava apenas abstinência de bebida, hoje caridade suscita a ideia de esmola e liberal lembra política. Atualmente ser santo não é algo muito apreciado; devoção e beatice tem significado pejorativo, parecem sugerir hipocrisia ou retrocesso. 
Não é normal apresentar alguém, dizendo: Tenho a honra de apresentar fulano, um grande santo; ficaríamos espantados se escutássemos que uma atriz, um jogador de futebol ou um político é um santo. Mesmo quando se diz que um homem é santo, significa que tal pessoa é um excelente amigo, com ideais superiores. Quando um homem responde com naturalidade: na verdade não sou santo, porém trabalho para ser; tal pessoa presta homenagem aos santos, confessa implicitamente quão longe se encontra da perfeição, sem querer passar por vaidoso ou crítico. 
Os santos foram homens de carne e osso! Não são personagens fictícias!
Muitos santos foram completamente desconhecidos ou a história pouco fala a respeito. São como os incontáveis soldados mortos nas guerras, em cujos túmulos se encontram as palavras: Conhecido só por Deus. 

MARTINDALE, Charles. A santidade através dos tempos. O que significa ser santo? São Paulo: Ecclesiae. 2010

sábado, 11 de março de 2017

O amolecimento dos bons

Ocorre-me uma palavra de Pio XII que cito de memória: "tenho medo do cansaço dos bons". O grande Papa que ainda sabia que "viver é lutar" e que a vida vivida na sequela de Cristo é um combate, um bom e árduo combate, "uma guerra sem tréguas contra três cruéis inimigos: o mundo, o demônio e o amor-próprio", se ainda hoje vivesse e reinasse, certamente repetiria seu grito de alarme em vários tons e com maior severidade: "o que mais temo não é só o cansaço dos católicos conscientes, é a moleza, é a pusilanimidade, é a tolerância ditada pela covardia, erigida em sistema e vista como a maior virtude do novo humanismo". 
Aos católicos que ainda não se transmutaram, e que não esqueceram a língua de Deus, não precisaria citar I Mac III, 59. Cito a conhecida passagem pelo amoroso gosto de escrever com meus garranchos e meu resto de vida estas belas palavras do Livro Santo: "Para nós é melhor morrer na guerra do que ver o mal de nossa gente e das coisas santas". Dos Macabeus ao apóstolo Paulo, que se alegrava de ter combatido o bom combate, vê-se a inflexível direção da História Sagrada que ganha nova dimensão na Encarnação de Cristo e culmina na Cruz e só terminará, não no dia de um Congresso Ecumênico que festejasse la réussite de l´homme, mas, ao contrário, na espantosa e terrível separação que desde já, no temor e tremor, nos lembra que o seu critério é o da sujeição à vontade de Deus, e não o da fraternidade de irmãos de pai desconhecido. 
É claro que a luta a que nos referimos, quando dizemos que viver é lutar, é mais espiritual do que temporal. O apóstolo Paulo diz: "Porque nós não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares". Por isso tornamos a dizer o que dias atrás já dissemos e que, nos frutuosos tempos de quaresma, convém repetir: a melhor luta que devemos travar para o bem de nossos irmãos e para o agrado de Deus é a de nossa santificação pessoal que nos obriga a colocar a defesa das coisas santas acima de todos os problemas temporais. Sim: a luta pela santificação é o meu primeiro dever em relação a Deus e ao próximo. 

CORÇÃO, Gustavo. Uma teologia da história. Niterói: Permanência. 2015

sexta-feira, 10 de março de 2017

Testemunhas na era pagã

A cena muda, mas as divisões persistem. Todavia, o contexto em que a Igreja atua é um mundo já pagão...

Joseph Ratzinger -  Sem dúvida, a descristianização chegou a níveis que não conseguiríamos imaginar na época do encerramento do Concílio. Basta pensar que na ex-Alemanha comunista pouco menos de 1% da população se batiza. Assistimos a um progresso incrível do paganismo, e o cristianismo, que ainda parecia presente há trinta anos, desaparece da vida e da consciência pública. Assim, temos que nos confrontar com um pós-cristianismo muito forte não só no Ocidente mas também no Oriente. Basta pensar na Rússia, onde encontramos a mesma situação: existe um núcleo de fiéis, mas a grande maioria quase não é tocada pelo Evangelho. Por isso, nasce uma exigência de uma real nova evangelização, que se dirija a essas pessoas distantes do cristianismo, embebidas de secularismo, que devem ser aproximadas da realidade divina. Essa é a grande missão para os próximos anos. 

Hoje, todas falam de nova evangelização, mas ela pode se tornar uma palavra de ordem. O que significa evangelizar? Como pode acontecer a fé para o homem de hoje?

Joseph Ratzinger: Creio que as testemunhas são a primeira condição para essa evangelização. Pessoas que, vivendo a fé e verificando-a na sua vida, mostrem com clareza que a fé faz viver e possibilita uma vida autenticamente humana na comunhão e na comunidade. Só assim o conteúdo da mensagem torna-se compreensível. Por isso, precisamos de núcleos de cristãos onde essa verificação da fé na vida - pessoal e comunitária - se realize e ofereça a todos uma experiência cujas raízes vale a pena conhecer. 

RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Ser cristão na era neopagã - vol.3: entrevistas (1986-2003) / Cardeal Ratzinger; organização, apresentação e notas de Rudy Albino de Assunção - Campinas, SP: Ecclesiae, 2016. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Aborto

O aborto é entendido como a interrupção da gravidez quando o feto ainda não é viável, isto é, não pode subsistir fora do útero materno. Pode ser classificado em: 
- Espontâneo: a interrupção da gravidez acontece por causas naturais sem a livre intervenção humana. Causa: normalmente é a má formação do próprio embrião (estudos mostram que ocorrem de 10 a 15% de abortos de todas as concepções). 
- Provocado: é realizado pela livre intervenção da pessoa humana. Deve haver um ato positivo, isto é, uma ação para que ele aconteça. As razões que provocam o aborto são normalmente chamadas de indicações. 
Quando o aborto é provocado, existem duas formas de colaboração: 
Formal: colaboração direta e intencional. Ela é imoral e ilícita. É feita por médicos, familiares, parentes, namorados, esposos, legisladores, advogados etc. que realizam, que agem diretamente, incentivam, apoiam o aborto ou induzem a ele. 
Material: colaboração indireta e não-intencional. São ilícitas as atividades que não têm outra finalidade do que preparar as condições para o aborto: cirurgiões, ajudantes, médicos assistentes, ginecologistas presentes na execução, anestesistas, juiz tutelar em caso de menores ou deficientes mentais etc. 

COELHO, Mário Marcelo Pe. O que a Igreja ensina sobre... São Paulo: Canção Nova: 2016. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Por que e como devemos amar a Deus

Queres então saber de mim por qual motivo e em que medida devemos amar a Deus? Bem, digo que o motivo de nosso amor por Deus é o próprio Deus, e que a medida desse amor é amar sem medida. Está suficientemente claro? Sim, talvez, para um homem inteligente, mas devo falar para sábios e ignorantes, e se já disse de modo claro para os primeiros, devo também considerar os segundos. É então para eles que vou desenvolver minhas ideias, e procurar aprofundá-las. Digo que temos duas razões para Deus ser amado por si mesmo: não há nada de mais justo e nada de mais vantajoso. Com efeito, esta pergunta "por que devemos amar a Deus"? apresenta-se sob dois aspectos: por que Deus merece vosso amor, e que vantagem temos em amá-lo. Vejo uma resposta para ambas: a razão pelo qual devemos amar a Deus é ele mesmo. Do ponto de vista do merecimento, o grandioso Deus se deu a nós, a despeito de nossa indignidade. Com efeito, o que poderia nos dar que valesse mais do que ele mesmo? Quando perguntamos quais razões temos para amar a Deus, e como adquiriu o direito ao nosso amor, constatamos que a principal é que ele nos amou primeiro. Merece, então, nossa retribuição, sobretudo se consideramos quem é aquele que ama, quem são os amados e como os ama. Quem é, com efeito, aquele que nos ama? É aquele a quem todo espírito presta este testemunho: "És meu Deus, e não precisas do que tenho" (Sl 15,2). E esse amor em Deus não é a verdadeira caridade, visto que não ocorre por interesse? Mas a quem se dirige esse amor gratuito? O Apóstolo responde: "Quando éramos inimigos de Deus é que nos reconciliamos com ele" (Rm 5,10). Deus nos amou com um amor gratuito, mesmo sendo seus inimigos. 

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Tratado sobre o Amor de Deus. São Paulo: Paulus. 2015