A tarde era triste. A cidade estava imersa em sombras. Por ser Páscoa, Jerusalém estava repleta de pessoas. Algumas pareciam indignadas. Choravam, gritavam publicamente palavras de defesa, ofereciam voz ao desconsolo de suas almas indignadas. É certo que viram de perto os milagres, ouviram e acreditaram nas palavras do Condenado. É impossível não sofrer a dor dos que amamos. É um limite cruel, ver sofrer os que consideramos parte de nós.
Outras eram indiferentes. Certamente pertenciam ao grupo dos que não tiveram a graça de conhecê-Lo, de sentir a profundidade desconcertante de Seu olhar misericordioso. Não puderam ouvir Suas convicções, Sua forma tão particular de compreender questões humanas e divinas, tampouco tiveram a sorte de que suas vidas fossem modificadas por Ele.
Havia também as pessoas que O conheceram, que estiveram com Ele e que faziam questão de pedir a Sua morte. A crueldade é um fato comum na vida humana. Ao gritar uma sentença de condenação ao outro, de alguma forma tentamos ocultar os motivos pelos quais também deveríamos ser condenados.
Rejeitamos nos outros o que não suportamos em nós. A regra não justifica, mas ajuda-nos a compreender os mecanismos de nossas crueldade.
Melo, Fábio de. O discípulo da Madrugada. São Paulo: Planeta. 2014.

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